segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Educar o educador


Especialista em mudanças na educação presencial e a distância

        Texto inspirado no capítulo primeiro do livro: MORAN, José     Manuel,      MASETTO, Marcos e BEHRENS, Marilda. Novas Tecnologias e Mediação Pedagógica. 16ª ed. Campinas: Papirus, 2009, p.12-17
Um dos eixos das mudanças na educação passa pela transformação da educação em um processo de comunicação autêntica e aberta entre professores e alunos, principalmente, incluindo também administradores, funcionários e a comunidade, principalmente os pais. Só vale a pena ser educador dentro de um contexto comunicacional participativo, interativo, vivencial. Só aprendemos profundamente dentro deste contexto. Não vale a pena ensinar dentro de estruturas autoritárias e ensinar de forma autoritária. Pode até ser mais eficiente a curto prazo - os alunos aprendem rapidamente determinados conteúdos programáticos - mas não aprendem a ser pessoas, a ser cidadãos.
Com ou sem tecnologias avançadas podemos vivenciar processos participativos de compartilhamento de ensinar e aprender (poder distribuído) através da comunicação mais aberta, confiante, de motivação constante, de integração de todas as possibilidades da aula-pesquisa/aula-comunicação, num processo dinâmico e amplo de informação inovadora, reelaborada pessoalmente e em grupo, de integração do objeto de estudo em todas as dimensões pessoais: cognitivas, emotivas, sociais, éticas e utilizando todas as habilidades disponíveis do professor e do aluno.
Cada um de nós professores/pais colabora com um pequeno espaço, uma pedra, na construção dinâmica do "mosaico" sensorial-intelectual-emocional de cada aluno. Ele vai organizando continuamente seu quadro referencial de valores, ideias, atitudes, a partir de alguns eixos fundamentais comuns como a liberdade, a cooperação, a integração pessoal.
Só podemos educar para a autonomia, para a liberdade com autonomia e liberdade. Uma das tarefas mais urgentes é educar o educador/pai para uma nova relação no processo de ensinar e aprender, mais aberta, participativa, respeitosa do ritmo da cada aluno, das habilidades específicas de cada um.
É importante termos educadores/pais com um amadurecimento intelectual, emocional e comunicacional que facilite todo o processo de organizar a aprendizagem. Pessoas abertas, sensíveis, humanas, que valorizem mais a busca que o resultado pronto, o estímulo que a repreensão, o apoio que a crítica, capazes de estabelecer formas democráticas de pesquisa e de comunicação.
Só podemos ensinar até onde conseguimos aprender. E se temos tantas dificuldades em ensinar, entre outras coisas, é porque aprendemos pouco até agora. Se admitíssemos nossa ignorância quase total sobre tudo - tanto docentes como alunos - estaríamos mais abertos para o novo, para aprender. Mas ao pensar que sabemos muito, limitamos nosso foco, repetimos fórmulas, avançamos devagar.
Sabemos muito, mas não sabemos o principal. Temos conhecimentos pontuais, mas nos falta o referencial maior, o que dá sentido ao nosso viver. Por que e para que aprendemos? Quando só temos objetivos utilitaristas - como conseguir um diploma, um emprego, ganhar dinheiro - isso concentra nossos esforços, mas estreita nosso raio de visão, de percepção.
Temos visões parciais, que se constroem com dificuldade e estão inseridas numa dinâmica informativa volátil. Se aceitamos isso profundamente e com confiança, poderemos começar a procurar com menos ansiedade, a intercambiar nossas pequenas descobertas, a estarmos mais atentos a tudo, a não acreditar em verdades dogmáticas, simplistas. Perceberemos que a realidade é muito mais complexa do que as explicações científicas e que, ao mesmo tempo, iremos apoiando-nos na ciência para avançar a partir dela sem cair em explicações sem consistência.
Ensinar não é só falar, mas comunicar-se com credibilidade. É falar de algo que conhecemos intelectual e vivencialmente e que, pela interação autêntica, contribua para que os outros e nós mesmos avancemos no grau de compreensão do que existe.
Ensinaremos melhor se mantivermos uma atitude inquieta, humilde e confiante com a vida, com os outros e conosco, tentando sempre aprender, comunicar e praticar o que percebemos até onde nos for possível em cada momento. Isso nos dará muita credibilidade, uma das condições fundamentais para que o ensino aconteça. Se inspirarmos credibilidade, poderemos ensinar de forma mais fácil e abrangente. A credibilidade depende de continuar mantendo a atitude honesta e autêntica de investigação e de comunicação, algo não muito fácil numa sociedade ansiosa por novidades e onde há formas de comunicação dominadas pelo marketing, mais do que pela autenticidade.
Só pessoas livres - ou em processo de libertação - podem educar para a liberdade, podem educar livremente. Só pessoas livres merecem o diploma de educadoras. Necessitamos de muitas pessoas livres na educação que modifiquem as estruturas arcaicas, autoritárias do ensino. Só pessoas autônomas, livres podem transformar a sociedade.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

GÊNERO


ESTAMPA FEMININA

Personagem de novela ilustra o desconforto com a nova representação da mulher, que os dicionários de língua portuguesa por muito tempo  reproduziram.

Por John Robert Schmitz

            A novela Fina Estampa, da rede Globo, materializou na ficção a maneira desconfortável com que o brasileiro parece lidar com a representação linguística da mulher contemporânea. A portuguesa Griselda Pereira (interpretada por Lília Cabral)  é uma trabalhadora  séria. Encanadora e eletricista, é uma batalhadora chefe de família, faz-tudo  engajada em profissões que a trama de Aguinaldo Silva se empenha em tomar por masculinas. A caracterização da personagem segue à risca a masculinização das atividades que abraçou: despida de vaidade, Griselda, tem apelido de homem (Pereirão), veste-se de forma desleixada, fala grosso. Age estereotipadamente segundo esse modelo “Pereirão”: as palavras que definem seu gênero serão também elas masculinizadas.

Hesitação
            A representação caricatural da telenovela das nove – segue a mesma hesitação dos dicionários brasileiros em incorporar os gêneros femininos a palavras que, por um tempo já remoto, foram relacionadas a atividades masculinas. Somente neste século 21, os elaboradores de dicionários de língua portuguesa tomaram ciência de que as mulheres ao longo dos anos têm conquistado cada vez mais espaço na sociedade brasileira. No passado não tão remoto não havia “arquitetas”, “engenheiras”, “advogadas” ou “médicas” atuantes no país. O Brasil mudou radicalmente porque hoje em dia temos “senadoras”, “deputadas”, “vereadoras”, “prefeitas” e uma “presidente” ou “presidenta”.
            Quem consulta o Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa (Curitiba: editora Positivo, 2010) vai, felizmente,  ver as referidas palavras dicionarizadas. Mas algumas das edições antigas de obras lexicográficas identificaram os substantivos relativos a diferentes profissões (arquiteto, advogado, médico) sempre na forma masculina (-o) com a abreviatura s.m. (substantivo masculino). Não constavam das obras antigas verbetes para “advogada” ou “engenheira”. Mesmo  a reimpressão com alterações feita pela edição de 2007 do Houaiss, por exemplo, que dedica verbete específico para “advogada”, toma “engenheiro” como palavra exclusivamente masculina.

Gêneros
            Acredito que o problema se deve à fusão (ou à confusão?) da noção de gênero “gramatical” com a de gênero “natural”. Em várias obras lexicográficas, a prática do passado foi que os substantivos que se referem a coisas inanimadas como “livro”, “rio” e “edifício” foram identificados também como substantivos masculinos abreviados s.m., semelhante ao caso das profissões: “químico” e “psicólogo”.
            Os dois grupos são diferentes.
         O primeiro descreve o sexo (gênero) de pessoas (lexicóloga, geólogo) e de animais (cavalo, cachorro) neste nosso mundo real, isto é, o gênero “natural” que nada tem a ver como sistema gramatical do idioma.
            O segundo grupo, de fato, diz respeito ao “reino da gramática”, para ecoar a visão de Monteiro Lobato. Na verdade, o fenômeno linguístico  de gênero “gramatical” de substantivos inanimados é arbitrário, pois em português o vocábulo “ponte” é feminino (a ponte), ao passo que em espanhol “puente” é masculino (El puente). O substantivo “origem” em espanhol é do gênero masculino (El origen), enquanto o vocábulo correspondente em português é feminino.
          O  que  me inquieta  é  a  apresentação  de  profissões   (psicólogo, s.m. “ especialista em psicologia”; químico, s.m. “indivíduo versado em química”) sempre no gênero masculino. Quero crer  que a definição não reflete uma prática existente no passado (não tão remoto!) quando as mulheres foram de fato excluídas de profissões consideradas privativas do sexo masculino. Diria que é fácil eliminar possíveis suspeitas de machismo simplesmente apresentando os verbetes da seguinte forma: arquiteto-a, engenheiro-a, médico-a. Essa é a prática adotada pelo Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea (Lisboa: Academia das Ciências de Lisboa/Fundação Calouste Gulbenkian, 2001).
            Como leitor e amante de dicionários, todavia, prefiro verbetes diferentes, um para os do sexo masculino e outro para o feminino, como “engenheira: mulher formada em engenharia e/ou aquele que exerce como profissão; engenheiro: indivíduo diplomado em engenharia ou profissional dessa área” (Aurélio,2010: 796).
            Existe, porém, um perigo com respeito ao registro das profissões e dos ofícios nos quais os seres humanos se engajam, como os da personagem Griselda Pereira. Os dicionários que registram, por um lado, os vocábulos “som-melier”, “encanador”, ”marceneiro” e “bombeiro”, como sendo atividades masculinas e, por outro, “arrumadeira” e “faxineira” como exclusivamente femininas não refletem as práticas sociais na atualidade. Como as da personagem de Fina Estampa.

Distinção
            A língua portuguesa não é machista. As pessoas que falam inglês, espanhol, português e qualquer outra língua podem ser preconceituosas no relacionamento com outros indivíduos na utilização dos seus respectivos idiomas. Não podemos culpar os idiomas.
            É preciso louvar as mudanças no que diz respeito ao tratamento das mulheres nas obras lexicográficas. Elas devem em grande parte ao trabalho de muitas lexicólogas que atualmente participam das equipes que preparam dicionários. O que realmente foge da alçada dos dicionários são os problemas existentes na comunidade: a exclusão da mulher de oportunidades iguais no emprego, sem remuneração igual pelo mesmo serviço prestado; a falta de proteção contra violência e discriminação de qualquer tipo.
            E, embora tenha aberto espaço até para “presidenta”, curiosamente o próprio Aurélio não registra “lexicóloga” nem “lexicógrafa”. Santo de casa.

Revista Língua Portuguesa/Outubro de 2011